Maria, uma história de sucesso
Colunista Fabio Giambiagi
O relato - verídico - que vou fazer tem como personagem uma pessoa a quem vou me referir utilizando o nome fictício de Maria. Trata-se de uma história que é um exemplo que deveria servir de motivo de reflexão para todos aqueles que participam do debate sobre políticas públicas no Brasil.
A cultura brasileira tem o hábito de jogar a responsabilidade de tudo no governo. É dele que se cobra a melhora de bem-estar de cada um. O enfoque deve mudar: o que o governo deve dar é fundamentalmente educação, o resto é esforço pessoal. Sou um defensor da idéia de que o melhor papel que o governo pode desempenhar é o de oferecer à população os meios para que a maior proporção possível de pessoas tenham condições de ganhar a vida pelos próprios méritos.
O êxito de países como a Coréia do Sul ou, mais longinquamente, os Estados Unidos, para citar duas nações bem-sucedidas, residiu em boa parte na revolução educacional pela qual passaram ao longo de décadas, e que deu à maioria da população a base para que cada indivíduo tente ganhar a vida da melhor maneira possível. O pacto implícito que existe entre o Estado e o cidadão comum nesses países que deram certo é: "eu dou educação, facilito o empreendimento empresarial e você tenta ganhar a vida". É nesse espelho que temos que nos olhar.
A pessoa dessa história, Maria, é filha de pessoas humildes, do interior de Minas Gerais. Eu a conheci quando era empregada doméstica de uns amigos, na época em que eles e a minha família morávamos nos Estados Unidos. O casal de amigos, com filhos pequenos, tinha levado a empregada, para poder facilitar o dia-a-dia da vida doméstica. Maria chegou aos EUA com o conhecimento adquirido em apenas um par de anos de um curso de inglês, custeado por ela, e foi de uma grande ajuda na tarefa de tomar conta de duas crianças durante a semana. Paralelamente a essas atividades, foi aperfeiçoar o inglês por conta própria em uma escola pública americana e conseguiu sobreviver no mundo competitivo do cotidiano dos EUA.
Anos depois, quando meus amigos voltaram com ela para o país, já com os filhos maiores, Maria tinha conquistado a reputação, na comunidade brasileira, de ser uma pessoa eficiente na ajuda doméstica, simultaneamente com a característica de ter facilidade de adaptação ao tipo de adversidades de quem mora no exterior, combinada com o bom uso da língua inglesa.
Com esse currículo, tempos depois, outras pessoas conhecidas, sabendo da situação e do desejo dela de tentar novamente a sorte no exterior, a convidaram para desempenhar funções parecidas na Áustria, na residência de outro casal. Lá foi Maria aprender alemão e conviver com o frio austríaco, tendo morado em Viena por alguns anos. Posteriormente, foi convidada a voltar para os EUA.
Ao longo do tempo, nosso personagem foi acumulando um certo capital. O que ganhava, tanto nos EUA como na Áustria, era compatível com a média salarial paga por essas tarefas em ambos países. Tais valores, medidos em termos de poder aquisitivo no Brasil, lhe permitiram o acúmulo de uma poupança importante para os padrões dessa categoria social, dado que a pessoa conseguia todos os meses poupar uma certa fração dos seus rendimentos.
Os anos se passaram e, graças ao capital humano - conhecimento de línguas e a destreza de quem aprendeu a "se virar" no exterior como legítima "self-made-woman" - e ao capital propriamente dito, acumulado em dólares e em euros, traduzidos para reais, nossa Maria é hoje próspera dona de uma escola de ensino de inglês, na cidade de origem, no interior de Minas, para onde retornou, após ter saído muitos anos antes para tentar a sorte em Brasília, onde começou a trabalhar como empregada dos meus amigos, no começo dessa história, decidida a aprender inglês.
O que é fascinante neste relato é que, com garra e dedicação, depois de ter recebido a educação básica em escola pública na sua infância e adolescência, Maria não recebeu nenhuma ajuda adicional do governo brasileiro. Nunca foi brindada com algum desses exemplos de "bolsa-tudo", que têm proliferado no Brasil. Jamais tentou ganhar algum dinheiro extra alegando que estava doente e não podia trabalhar, tentando receber, por exemplo, um auxílio-doença do INSS. Nem foi objeto de algum LOAS, seguro-desemprego ou alguma outra renda qualquer a título de proteção contra os desassistidos. E, entretanto, é uma vitoriosa e exemplo vivo de como, se o Estado faz o básico - dar a um cidadão uma educação decente -, é possível a uma pessoa ter condições de conquistar seu espaço no mundo, sem precisar da ajuda do governo.
O Brasil sofre de um viés cultural da classe dirigente: o assistencialismo exacerbado. Durante décadas, nós tivemos políticas sociais muito precárias e, certamente, nos últimos 25 anos de crise, um aumento do gasto assistencial era tão necessário quanto inevitável. Porém, o pêndulo foi longe demais: hoje, o Brasil gasta uma quantidade expressiva de recursos para sustentar uma massa significativa de pessoas, que recebem benefícios assistenciais de justificativa duvidosa, aposentadorias precoces ou benefícios sociais sem nunca ter contribuído para tal.
Compreender essa distorção é crucial para definir as políticas públicas no futuro, com uma necessária dose de realismo. Criou-se no Brasil uma cultura pela qual, para que os pobres melhorem de vida, a pressão é no sentido de que recebam alguma grana do governo: um LOAS aqui, um benefício previdenciário lá contribuindo por pouco tempo, um aumento do salário mínimo acolá, desvinculado do aumento da produtividade.
Precisamos mudar essa cultura, para incutir na população como um todo a ética do trabalho e a idéia de que o que o governo deve fazer é dar uma boa educação para a população, mas que, a partir disso, o rendimento de cada um deve estar associado ao esforço e aos méritos pessoais. Não podemos aspirar a ter a renda da Coréia sem incorporarmos os seus hábitos!
Fabio Giambiagi, economista, co-organizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2004" (Editora Campus). E-mail: fgiambia@terra.com.br.
Valor Econômico - 17/01/05

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