Thursday, January 20, 2005

A importância do foco para o sucesso das companhias

Por Julio Sergio Cardozo

O CEO de uma multinacional perguntou-me, numa certa ocasião, qual seria a receita ideal de sucesso. Antes mesmo de elaborar meu raciocínio para responder à indagação, fui interrompido pelo meu próprio inquisidor, que emendou: "Não adianta persistência, entrosamento com a equipe e apenas ousadia. É ineficaz reunir os melhores talentos e inovar o modelo de negócios a todo instante, se falta foco?" A conversa encerrou-se ali mesmo, mas aquelas palavras ficaram martelando na minha memória. E me auxiliou a fomentar um debate sobre os rumos e as constantes transformações no ambiente empresarial. Portanto, num cenário em que há regras e peculiaridades próprias, a amplitude e a velocidade com se dissemina o conhecimento encurtou a vida útil dos aventureiros. O foco no trabalho será o fosso entre vitoriosos e derrotados.
Entender o foco da empresa é questão de sobrevivência. Para se manter num mercado cada vez mais enxuto e competitivo, as organizações mais avançadas passaram a olhar o capital humano como seu maior ativo. Dessa maneira, mudaram a forma de lidar com o talento. É este contingente responsável pela condução dos principais objetivos da corporação. Sem foco e linha de atuação definida, a companhia ficará no meio da travessia e corre o risco de naufragar. Esse temor permitiu a evolução dos processos e determinou uma reviravolta nos sistemas de gestão. Tornou-se fundamental tentar determinar e separar o que é essencial daquilo que vai tirar a concentração da equipe. Cabe ao líder estar atento a qualquer movimento com potencial de gerar a dispersão entre os funcionários.
Alguns estudos apontam que normalmente as pessoas têm dificuldades em administrar seu tempo com racionalidade seja por desconhecimento ou por absoluta incapacidade de se adaptar a tempos tão bicudos. Aquilo que facilita a vida das pessoas, na verdade, tem potencial para ser o elemento complicador, por mais paradoxal que possa parecer. O e-mail, por exemplo, que liderou a revolução no mundo dos negócios, pode ser considerado uma espécie de "ladrão" que vai roubar aquilo que há de mais importante dentro das empresas: a produtividade dos profissionais.
A perda do foco geralmente está relacionada com a falta de objetividade. As enfadonhas reuniões são uma praga. Quem nunca participou de um encontro longo, sem informação prévia, arrastada e modorrenta? Não existe nada mais produtivo do que estar frente a frente com seu cliente, para debater e definir planos e projetos. Mas quando as duas partes perderam a noção do foco, a sensação é de derrota para ambos.
As circunstâncias causam o desequilíbrio entre o prioritário e o urgente. Aí mora o perigo, pois a ausência de discernimento pode ser o início do fim. É responsabilidade do líder administrar esse descompasso e criar um sistema que permita a cada funcionário ser o gestor das próprias prioridades. Resolver esse gargalo fará com que todos caminhem unidos na mesma direção. Assim, melhora-se a auto-estima, a produtividade e, conseqüentemente, a alegria de se trabalhar.
É fundamental que se respeite as características e necessidades de cada um, desde que o foco tenha sido compreendido por todos. Num cenário em que a pressão por resultados norteia a filosofia corporativa, é fundamental dar transparência aos objetivos da companhia com constante fluxo de informação e evitar que a dispersão se torne um monstro chamado de falta de compromisso com o modelo de negócio.

Julio Sergio Cardozo é presidente da Ernst & Young América do Sul

Valor Econômico - 10/11/04

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