Thursday, January 20, 2005

UMA LIQUIDAÇÃO DE ALMAS

Transformar-se em marca de sabão e combinar os suspensórios com o discurso tornaram-se práticas comuns para conseguir emprego e vencer na vida. Cuidado! Os efeitos colaterais são inevitáveis

Colunista - Thomaz Wood Jr.

Daniela Sandler, no site do Digestivo Cultural, desabafa com senso e propriedade. Ao manifestar seu interesse em uma vaga na academia, ouviu de seu orientador (um historiador da arte, editor de journals científicos, enfim, um cidadão acima de qualquer suspeita de relações promíscuas com o “mercado”): “How are you going to market yourself? (Como você vai se vender?)” Ao que reagiu, indignada: “Foi como um bofetão. Ora, ué, antes de perguntar ‘como’, ninguém perguntou ‘se’ eu queria me vender”.
A reação é justificada. Participar de um processo seletivo significa preparar-se, mostrar vontade e capacidade. Vender é diferente: pressupõe focar a embalagem e o jogo de cena. Significa também reconhecer que fomos “coisificados”, transformados em artigos que valem mais pela aparência do que pelo conteúdo.
Virar marca de sabão, é bom admitir, não é coisa nova. Há tempos as empresas de recolocação dominam as melhores técnicas de transmutação. “Plástica” no currículo, dicas para combinar gravatas e suspensórios e técnicas especiais para fazer amigos e influenciar pessoas: vale tudo para conseguir uma boa vaga. Resultado: os processos seletivos se transformaram em grandes simulacros, com personagens improváveis tentando desempenhar papéis impossíveis. Mais grave: de tanto lermos e repetirmos os clichês – “vender a si mesmo”, “criar uma marca pessoal” e “encantar o cliente” –, incorporamos os conceitos como naturais e os transportamos para a vida pessoal.
Vender, o verbo, e dignidade, o substantivo, nunca se deram muito bem. Teatro e cinema, em momentos de alta intensidade dramática, tocaram os nervos da questão. Na clássica peça de Arthur Miller, A Morte do Caixeiro Viajante, Willy Loman é o perdedor arquetípico, o homem que falhou nas vendas e, portanto, na vida. Loman gasta sua existência a perseguir sonhos de sucesso e grandeza, porém, na meia-idade, enfrenta a realidade do fracasso. Em uma versão feita para a tevê (dirigida por Volker Schlöndorff, em 1985), Dustin Hoffman interpreta Loman, com seus devaneios pelo passado, porém sempre sugado de volta à crueza do presente.
O Sucesso a Qualquer Preço (Glengarry Glen Ross), peça da década de 80 e filme de 1992, de David Mamet, retoma a venda como epicentro da miséria humana. No filme, Shelley Levene (Jack Lemmon), Ricky Roma (Al Pacino), Dave Moss (Ed Harris) e George Aaronow (Alan Arkin) são corretores de imóveis. O modesto escritório é gerenciado pelo fraco John Williamson (Kevin Spacey). A modorrenta rotina é quebrada quando um arrogante emissário da matriz (Alec Baldwin) passa-lhes um sermão. O empertigado adverte-os que apenas uma coisa conta na vida: fazer com que os clientes assinem na linha pontilhada. Então, tira-os definitivamente da letargia ao propor um concurso de vendas: o primeiro lugar ganhará um Cadillac, o segundo ganhará um conjunto de facas. Já o terceiro colocado será despedido. A obra é menos sutil e mais brutal do que a peça de Miller. Semelhanças com os subterrâneos das grandes corporações são mais que mera coincidência.
No filme The New Age, dirigido por Michael Tolkin em 1994, um casal sofisticado e bem-sucedido (interpretado por Peter Weller e Judy Davis) vê a vida pessoal e a carreira ruírem. Weller termina em uma empresa de vendas diretas, empurrando ilusões e relógios por telefone. Após um longo percurso, o relutante Weller finalmente integra-se ao mercado: mercadoria e vendedor transformam-se em uma só entidade. Em uma cena memorável, o relutante Weller supera seus limites, entrega sua alma ao negócio e realiza uma venda singular. Mis-en-scène, edição e música sublinham a transcendência do momento.
Enquanto isso, fora dos palcos e das telas, o avanço do estilo feira livre nas relações profissionais e pessoais provoca reações variadas: há os que se atiram de corpo e alma, veneram Trumps e seus clones e, a cada “venda”, sentem-se avançando no caminho da felicidade; alguns se defendem da “mercantilização” das relações pelo cinismo e pelo sarcasmo e vivem à margem; outros preferem o pragmatismo – em certas ocasiões, teorizam e criticam; noutras, praticam os rituais mercadologicamente corretos. Equilibrar-se na tênue linha que separa a utopia ingênua da entrega incondicional não é fácil nem trivial.


Carta Capital - Número 324 - 12/01/05



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