Thursday, January 20, 2005

Há um modelo brasileiro de programa de qualidade de vida?

Alberto José Niituma Ogata

Os gestores dos programas de qualidade de vida brasileiros freqüentemente são tomados por um certo complexo de inferioridade por não conseguirem obter alguns indicadores de performance como acontece em certos países, principalmente nos Estados Unidos. Analisando os programas americanos observamos algumas características. A primeira delas é que apenas 20% dos funcionários estão dispostos a se integrar nos programas de qualidade de vida das empresas. Portanto, os programas acabam só voltados a este público.
Em termos conceituais, as empresas de lá preferem adorar o termo "wellness", referindo-se particularmente ao bem-estar no ambiente de trabalho, com forte conotação individual. A abordagem também é unifocal, já que a maioria dos programas se restringem à saúde física e mental, com especial atenção para a prevenção de doenças cardiovasculares, elegendo, portanto, os controle dos fatores relacionados ao estilo de vida (sedentarismo, tabagismo, obesidade, hipertensão arterial e colesterol alto). Os aspectos relacionados à vida social, cultural e espiritual são relegados a segundo plano e há pouca atenção no que se refere à responsabilidade social e ambiental.
Provavelmente estes programas têm forte influência do modelo biomédico de abordagem da saúde. Por meio deste modelo, o ser humano é considerado uma máquina; a doença, uma disfunção; o médico, um mecânico que pensa sobre determinantes físicos pré-estabelecidos. Por esta ótica, a promoção da saúde seria a redução dos fatores de risco e o foco, a prevenção de doenças. Com isso, a motivação para mudança de comportamentos seria o medo da morte prematura.
No Brasil adotou-se o termo "programa de qualidade de vida", provavelmente um caso único no mundo quando aplicado aos indivíduos e às empresas. Em geral, o termo tem sido aplicado, em outros países, às comunidades, cidades e sociedade. Ao adotarmos o termo, fez-se uma opção por programas de caráter mais preocupado com o bem-estar, sem deixar as ações no campo biológico em segundo plano. Por "qualidade de vida" entende-se uma reunião dos direitos inerentes aos cidadãos (políticos, civis e sociais), somados ao bem-estar proporcionado pela ação do tempo livre, equilíbrio ambiental, físico e mental. Desse modo, possibilita-se que as ações não se restrinjam ao caráter somente de prevenção de doenças, mas incluam outros enfoques.
Isso vai ao encontro dos preceitos do Centro de Promoção de Saúde de Toronto (Canadá), que propõe três dimensões para o conceito de qualidade de vida: Ser - físico, psicológico, espiritual; Pertencer - conexões com outros ambientes; e Transformar - atingir objetivos pessoais, crenças e aspirações. Já estudos brasileiros indicam entre as empresas ganhadoras do Prêmio Nacional de Qualidade de Vida, 61% tem ações no campo biológico, 16% no social, 15% no aspecto organizacional e 8% no psicológico. Portanto, estas empresas caminham para a abordagem completa do ser humano na questão da qualidade de vida.
Sem dúvida há necessidade de avanços na gestão de programas, no que se refere ao planejamento, avaliação e mensuração de resultados, bem como nos processos de comunicação. No entanto, os programas não devem se restringir a uma abordagem exclusiva do estilo de vida, que vise apenas a redução da mortalidade ou resultados econômico-financeiros.
Alberto José Niituma Ogata é vice-presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida e coordenador científico do IV Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida.

Valor Econômico - 17/11/04

0 Comments:

Post a Comment

<< Home