Dez livros para entender o Brasil
Dez livros para entender o Brasil
Sugestão de leituras para quem deseja conhecer melhor o país em que vivemos, abrangendo aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos.
1. Casa-grande & senzala
Livro de Gilberto Freyre, é uma espécie de carteira de identidade do Brasil. Publicada em 1933, a obra revisou as concepções arianistas até então em voga, valorizando o papel dos negros e dos mestiços na gênese de nossa cultura. Ajudou a propagar a idéia do Brasil como pátria da ''democracia racial'', embora esta expressão não apareça em nenhum momento no livro. Entre suas teses polêmicas está a apologia da colonização portuguesa.
2. Os sertões
De Euclides da Cunha. Revelou, em 1902, um país até então ignorado pelas elites do litoral: o Brasil sertanejo, forte, místico. Sem o livro, a Guerra de Canudos seria hoje uma nota de rodapé na História.
3. Formação econômica do Brasil
De Celso Furtado, tem qualidades raras numa obra do seu setor: clareza, concisão. Resumiu, em 1960, quatro séculos de história econômica.
4. O negro no futebol brasileiro
De Mário Filho, fala da gênese do nosso futebol. Mais do que isso: é uma tentativa de se pensar o país a partir do futebol. Publicado em 1947, vale como ensaio social ou peça literária.
5. Raízes do Brasil
O historiador Sergio Buarque de Hollanda apresenta o ''homem cordial'', expressão que tomou emprestado do poeta Ribeiro Couto. Lançado sem grande repercussão em 1936, o livro teve uma edição revista em 1947 e ganhou status de clássico da historiografia.
6. Literatura e sociedade
Livro de 1965, de Antônio Cândido, analisa o significado da experiência literária ao longo da História do Brasil. Ajuda-nos a compreender a dimensão estética da literatura, com novas luzes sobre o debate entre a influência estrangeira e a autenticidade na arte brasileira.
7. Formação do Brasil contemporâneo
Publicado em 1942, o livro é uma das primeiras análises de caráter marxista sobre nossa História, contrapondo-se à tradicional valorização dos heróis individuais. De Caio Prado Júnior.
8. Carnavais, malandros e heróis
Com estilo provocador, o antropólogo Roberto DaMatta investiga nossa maior festa e personagens paradigmáticos da sociedade brasileira. De 1978, analisa o bordão ''sabe com quem está falando?'' e o chamado ''jeitinho brasileiro''.
9. Balanço da bossa
Livro organizado, em 1968, pelo poeta Augusto de Campos, autor da maioria dos textos. Traça um painel da moderna música popular brasileira. É obra útil para entender o debate público que se seguiu ao surgimento da bossa nova, e também analisa festivais, tropicalismo e jovem guarda.
10. A segunda via
Livro escrito em 2001 pelo filósofo Roberto Mangabeira Unger, propõe a reconstrução de todo o nosso quadro institucional. Em seu projeto de país, o autor fala sobre aquilo que considera o sonho brasileiro: construir uma civilização que reconcilie a pujança com a ternura.
Jornal do Brasil - ?/?/04
O DECLÍNIO DA CLASSE MÉDIA
+ autores
Funções como médico, terapeuta, advogado e cientista se deterioram com a crise dos setores industriais e reduzem o indivíduo a seu próprio "capital humano'
O DECLÍNIO DA CLASSE MÉDIA
Robert Kurz
Desde os meados dos anos 1980, o discurso pós-moderno imperou na discussão teórica global ao longo de quase duas décadas, principalmente na esquerda. A crítica da economia política foi substituída pela crítica da linguagem, e a análise das relações materiais objetivas, pela arbitrariedade da interpretação subjetiva; no lugar do economicismo tradicional de esquerda entrou um culturalismo de esquerda igualmente redutor e, no lugar do conflito social, a simulação midiática. Nesse meio tempo, porém, a situação se alterou radicalmente. A crise econômica atinge agora, mesmo no Ocidente, amplas camadas sociais, que até então haviam sido poupadas. É por isso que a questão social retorna no discurso intelectual. Mas as interpretações continuam com uma notória palidez e parecem francamente anacrônicas. A polarização entre pobres e ricos, exacerbando-se de forma irresistível, não encontrou ainda um novo conceito. Se o conceito marxista tradicional de "classe" tem uma súbita conjuntura favorável, isso é antes um sinal de desamparo. No entendimento tradicional, a "classe operária", que produz a mais-valia, era explorada pela "classe dos capitalistas" por meio da "propriedade privada dos meios de produção". Nenhum desses conceitos pode expor com exatidão os problemas atuais. A nova pobreza não surge por conta da exploração na produção, mas pela exclusão da produção. Quem ainda está empregado na produção capitalista regular já figura entre os relativamente privilegiados. A massa problemática e "perigosa" da sociedade não é mais definida por sua posição no "processo de produção", mas por sua posição nos âmbitos secundários, derivados, da circulação e da distribuição. Trata-se de desempregados permanentes, de destinatários de operações estatais de transferência ou de operadores de serviços nos domínios da terceirização, até chegar aos empresários da miséria, os negociantes de rua e os coletores de lixo. Essas formas de reprodução são, segundo critérios jurídicos, cada vez mais irregulares, inseguras e amiúde ilegais; a ocupação é irregular, e as rendas transitam no limite do mínimo necessário para a existência ou até caem abaixo disso.
Classe atropelada
Inversamente, tampouco a "classe dos capitalistas" pode ainda ser definida no velho sentido, segundo os parâmetros da clássica "propriedade privada dos meios de produção". Na figura do aparelho estatal e das infra-estruturas tanto quanto na figura das grandes sociedades acionárias (hoje transnacionais) o capital aparece de certo modo como socializado e anonimizado; ele se revelou abstrato, deixando a forma personalizável da sociedade inteira. "O capital" não é um grupo de proprietários legais, mas o princípio comum que determina a vida e a ação de todos os membros da sociedade não só exteriormente como também em sua própria subjetividade. Na crise e através da crise, efetua-se mais uma vez uma mudança estrutural da sociedade capitalista, dissolvendo as situações sociais antigas, aparentemente claras. O cerne da crise consiste justamente em que as novas forças produtivas da microeletrônica fundem o trabalho e, com ele, a substância do próprio capital. Dada a redução cada vez maior da classe operária industrial, cria-se cada vez menos mais-valia real. O capital monetário foge rumo aos mercados financeiros especulativos, visto que os investimentos em novas fábricas se tornaram não-rentáveis. Enquanto partes crescentes da sociedade fora da produção pauperizam ou até caem na miséria, do outro lado se realiza tão-somente uma acumulação simulatória do capital por meio de bolhas financeiras. Pela lógica, isso não é nada novo, pois esse desenvolvimento já marca o capitalismo global faz duas décadas. Mas é novo que agora a classe média nos países ocidentais também seja atropelada. [A ensaísta norte-americana] Barbara Ehrenreich já havia publicado em 1989 um livro a respeito da "angústia da classe média diante da queda". Porém o problema foi adiado em seguida por uma década inteira, já que a conjuntura baseada em bolhas financeiras dos anos 1990, juntamente com o impulso da tecnologia de informação e da comercialização da internet, despertou mais uma vez novos sonhos de florescência. O colapso da nova economia e o estouro das bolhas financeiras na Ásia e na Europa, em parte também nos EUA, começam agora, desde o ano 2000, a efetivar de maneira brutal a queda da classe média, já temida anteriormente. Mas quem é essa classe média e que papel ela desempenha na sociedade? No século 19, o mundo das classes sociais era ainda simples e transparente. Entre a classe dos capitalistas, isto é, dos proprietários privados dos meios de produção social, e a classe dos trabalhadores assalariados, que nada possuem além de sua força de trabalho, encontrava-se a classe dos assim chamados pequeno-burgueses. Essa antiga classe média se destacava pela posse de pequenos meios de produção (oficinas, lojas de venda etc.) nos quais ela empregava principalmente sua própria força de trabalho e a de sua família para vender seus próprios produtos no mercado. A expectativa dos marxistas ortodoxos era de que esses "pequeno-burgueses" iriam desaparecer aos poucos devido à concorrência das grandes empresas capitalistas, afundando na classe dos trabalhadores assalariados industriais, até a sociedade ficar polarizada nas duas classes principais, a burguesia e o proletariado.
"Nem peixe, nem carne"
Mas já no começo do século 20 houve na social-democracia alemã o célebre debate entre [Eduard] Bernstein e [Karl] Kautsky sobre a "nova classe média". Eles se referiam a determinadas funções técnicas, econômicas e intelectuais que haviam resultado do processo de socialização capitalista. Com a cientificização crescente da produção e a expansão correspondente das infra-estruturas (administração, engenharia, formação, educação, sistema de saúde, sistema de comunicação, esfera pública midiática, instituições de pesquisa etc.) surgiu uma nova categoria social, que, segundo o velho esquema, não era "nem peixe nem carne".
Não se tratava de capitalistas, porque não representava nenhum grande capital monetário; tampouco se tratava de pequeno-burgueses clássicos, porque não possuía os próprios meios de produção e em grande parte era formada de assalariados ou de autônomos meramente formais; porém tampouco se tratava de proletários, porque era empregada não como "produtores diretos" mas como funcionários do desenvolvimento capitalista das forças produtivas em todos os âmbitos da vida.
Certamente houve, já no século 19, professores e outros funcionários públicos bem como aqueles funcionários da economia empresarial que Marx designara de "oficiais e suboficiais". Mas numericamente essas categorias sociais pesavam tão pouco que mal podiam ser chamadas propriamente de "classes". Foi só com os novos requisitos do capitalismo no século 20 que as funções correspondentes se tornaram de massa, a ponto de constituírem uma nova classe média.
No debate marxista ligado ao começo dessa evolução, Kautsky buscou prensar as novas camadas médias no antigo esquema, incluindo-as de alguma maneira no proletariado, ao passo que Bernstein quis enxergar nesse fenômeno social uma estabilização do capitalismo, que possibilitaria uma política reformista moderada. De início, Bernstein pareceu ter razão por um longo tempo. A nova classe média se revelou cada vez mais claramente uma categoria social distinta da classe trabalhadora tradicional, não apenas segundo o conteúdo e o local da atividade mas também no aspecto econômico. Barbara Ehrenreich menciona como critério o fato de que para essas pessoas seu "status social se baseia antes na formação do que na posse de capital ou de outros valores materiais". Como sua constituição requer um longo tempo, até os 30 anos de vida ou além disso, e devora grandes recursos, a qualificação superior eleva o valor da força de trabalho bem acima das demais variações médias. Foi nesse contexto que se originou um conceito rico em conseqüências, a saber: o de "capital humano". Engenheiros empregados, especialistas de marketing, planejadores de recursos humanos, médicos autônomos, terapeutas, advogados, professores pagos pelo Estado, cientistas e assistentes sociais "são", sob um determinado aspecto, o capital de um duplo modo. De um lado, eles se relacionam estrategicamente com o trabalho de outras pessoas por meio de sua qualificação, dirigindo e organizando no sentido da valorização do capital; de outro, eles se relacionam em parte (sobretudo na qualidade de autônomos ou de funcionários diretores) com sua própria qualificação e, dessa maneira, com eles próprios na forma de "capital humano", como um capitalista no sentido da "autovalorização". A nova classe média não representa o capital no plano dos meios de produção de materiais externos ou do dinheiro, ela o faz no plano da qualificação organizadora ligado aos processos de valorização, em um alto nível de aplicação de ciência e tecnologia.
Maio de 68
No decurso do século 20, formaram-se inúmeras novas funções dessa espécie, e a nova classe média aumentou cada vez mais em termos numéricos. Particularmente, o desenvolvimento após a Segunda Guerra Mundial trouxe, juntamente com as novas formas de produção fordista e as indústrias do lazer, um surto complementar que ia nessa direção; era perceptível que na maioria dos países a parcela dos estudantes aumentava de geração a geração. O movimento estudantil mundial de 1968 mostrou o significado maduro desse setor social; no entanto ele foi também um primeiro sinal da crise. Se até então a constituição da nova classe média tinha de fato estabilizado o capitalismo no sentido de Bernstein e esteve ligada a reformas progressistas, agora começava um processo de desestabilização. Certamente o novo desemprego estrutural em massa, na seqüência da terceira revolução industrial e da globalização do capital, atingiu de início principalmente os produtores industriais diretos. Mas já estava delineado que também a nova classe média não seria poupada. A ascensão dessa classe acompanhou em muitos aspectos a expansão das infra-estruturas públicas, do sistema de formação e da burocracia do Estado social. A crise da valorização industrial real levou a uma crise financeira do Estado cada vez mais profunda. De repente, muitos domínios que antes eram considerados conquistas soberbas começaram a parecer luxo desnecessário e peso morto.
Diaristas intelectuais
O mote do "Estado enxuto" se propagou; as verbas para formação e cultura, para o sistema de saúde e numerosas outras instituições públicas foram cortadas; iniciava-se a demolição do Estado social. Também nas grandes empresas setores inteiros de atividade qualificada foram vítimas da racionalização. Dado o desabamento da nova economia, até mesmo as qualificações de muitos especialistas "high-tech" se viram desvalorizadas. Hoje não se pode mais ignorar que a ascensão da nova classe média não tinha uma base capitalista autônoma; pelo contrário, ela dependia da redistribuição social da mais-valia oriunda dos setores industriais. Da mesma maneira que a produção social real de mais-valia entra em uma crise estrutural devido à terceira revolução industrial, os âmbitos secundários da nova classe média vão sendo sucessivamente privados de seu solo fértil. O resultado não é somente um desemprego crescente de acadêmicos. A privatização e a terceirização desvalorizam o "capital humano" das qualificações inclusive no interior da parcela empregada e degrada o seu status. Diaristas intelectuais, trabalhadores baratos e empresários da miséria na figura de free-lance em mídias, universidades privadas, escritórios de advogados ou clínicas privadas não são mais exceções, mas a regra. Apesar disso, no final das contas também Kautsky não teve razão. Pois a nova classe média decaiu, é verdade, mas não para ser o proletariado industrial clássico dos produtores diretos, convertidos numa minoria que vai desaparecendo vagarosamente. De forma paradoxal, a "proletarização" das camadas qualificadas está ligada a uma "desproletarização" da produção.
Pessoas atomizadas
Nisso a desvalorização das qualificações vai de par com uma expansão objetiva do conceito de "capital humano".
Ao revés da decadência da nova classe média, realiza-se de certa maneira um inédito "pequeno-aburguesamento" geral da sociedade, quanto mais os recursos industriais e infra-estruturais aparecem como megaestruturas anônimas. O "meio de produção independente" se deteriora até atingir a pele dos indivíduos: todos se tornam seu próprio "capital humano", ainda que seja simplesmente o corpo nu. Surge uma relação imediata entre as pessoas atomizadas e a economia do valor, que se limita a reproduzir-se de maneira simulatória, por meio de déficits e bolhas financeiras.
Quanto maiores se tornam as diferenças entre o pobre e o rico, tanto mais desaparecem as diferenças estruturais das classes na estruturação do capitalismo. Por isso não tem o menor sentido que os ideólogos da classe média em queda queiram reclamar para si a velha "luta de classe do proletariado", não mais existente. A emancipação social requer hoje a superação da forma social comum a todos.
No interior do sistema produtor de mercadorias, só há a diferença quantitativa da riqueza abstrata, que, se existencialmente toca na questão da sobrevivência, não obstante permanece estéril em termos emancipadores. Um Bill Gates é tão pequeno-burguês quanto um empresário da miséria, ambos têm a mesma atitude para com o mundo e utilizam as mesmas frases. Com essas frases sobre o mercado universal e a "autovalorização" na ponta da língua, eles atravessam solenemente, juntos, o portão para a barbárie.
Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemão, autor de "Os Últimos Combates" (ed. Vozes) e "O Colapso da Modernização" (ed. Paz e Terra). Ele escreve regularmente na seção "Autores", do Mais!.
Tradução de Luiz Repa.
Folha de S. Paulo - 19/09/04 - Mais!
O ESTADO NOVO DA CULTURA
O ESTADO NOVO DA CULTURA
PROJETO DE REGULAMENTAÇÃO DA PRODUÇÃO AUDIOVISUAL PROPOSTO PELO GOVERNO FEDERAL FAZ DO BRASIL UM LABORATÓRIO DO CAPITALISMO DE INFORMAÇÃO E PÕE EM CRISE O CONCEITO DE IDENTIDADE NACIONAL
por Ivana Bentes
Eleições de 2002. No estúdio da Rede Globo em São Paulo, o apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, pela primeira vez na história do telejornal se levanta da bancada para receber o recém-eleito presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Antes de subir a rampa do Planalto, numa das imagens mais impactantes de nosso imaginário midiático, Lula sobe os degraus que o colocam num lugar fetiche, na tela/mente da nação, em rede nacional de televisão, ao lado do apresentador do Jornal Nacional.
Ao longo da edição, ele acompanha sua vitória nas ruas, vê sua vida em retrospecto num compacto, recebe cumprimentos, ouve velhos amigos e assiste às notícias do mundo desfilarem diante de si. Num acontecimento simbólico, toma posse da nação e da mídia, do Estado-mídia, essa corporação híbrida que marca o que chamamos de capitalismo informacional ou midiático. Lula começava seu governo com força total. No centro e com as benções da maior corporação de mídia da América Latina. Corta!
A cultura digital pós-industrial em todo o planeta vem pondo em cheque o capitalismo nacional e monopolista, deslocando de forma radical a idéia de uma "identidade nacional", fossilizada e arraigada, em nome de uma "diversidade" cultural bem mais complexa, perturbadora e nômade que todo o velho ideário nacionalista. Mais do que isso, a dupla face dos processos de globalização não aponta apenas para um diagnóstico apocalíptico, "a globalização tendendo a uniformizar idéias e modos de vida", mas também para uma outra globalização, das redes de cooperação e produção heterogêneas e diversas, criando novas linguagens e comportamentos.
Estamos assistindo a uma profunda transformação das tecnologias da comunicação, que deslocam, pulverizam ou potencializam a capacidade de produção de conteúdos entre atores muito distintos. De megacorporações transnacionais até a multidão de produtores/usuários na sua singularidade. Redes de cooperativas, coletivos de toda espécie, produtores independentes têm a real oportunidade de participar na produção da comunicação em nível local, regional e global.
Discutindo pela primeira vez, de forma pública e transparente, questões de ponta no campo da cultura, como a lei de software livre, a inclusão digital e a produção audiovisual, o Brasil aparece como um laboratório experimental do capitalismo informacional, dando importância, repercussão e visibilidade máxima a uma área, a cultura, relegada, em outros governos, à administração burocrática.
Com uma legislação para as comunicações obsoleta diante de tantas mudanças, o governo decidiu colocar em pauta um dos mais importantes projetos do Ministério da Cultura, o Projeto de constituição da Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), projeto discutido exaustivamente, desde 2000, pelo Congresso Brasileiro do Cinema, que engloba as entidades mais variadas e representativas do cinema brasileiro, num diálogo constante com empresas de comunicação e com as produtoras independentes de cinema e TV. A matéria é tão quente que extrapolou a fala dos especialistas, chegando finalmente à sociedade civil.
No olho do furacão O caráter público da discussão, raro no Brasil, com tal amplitude e mobilização, colocou o Ministério da Cultura (Minc) e a Secretaria do Audiovisual no olho de um furacão. A nova dimensão midiática do capitalismo que transforma qualquer um em produtor de conteúdo, com blogs, fotologs, TVs comunitárias no cabo, rádios e exibições de filmes e produtos audiovisuais na internet, no computador, em celulares. Potência e hiperatividade da multidão, ainda mal assimilada pelas grandes empresas. E onde o Minc aparece como mediador. Pois como estimular, promover e não sufocar esse fluxo, diante de um mercado tradicional que não entende as conseqüência vitais dessas mudanças?
Como dialogar por exemplo com uma esquerda que estacionou no capitalismo nacional industrial e que não consegue vislumbrar uma democracia global, um cenário em que a ação estatal não pode ser desvinculada de uma política internacional? Pois, se as estruturas de poder ultrapassaram as fronteiras nacionais, como insistir ainda em lutas apenas "nacionais", quando a globalização suscita contradiscursos e lutas também globais, nômades e móveis, como diz Antonio Negri?
As transformações no campo da comunicação fizeram da cultura lugar estratégico de pensamento e lutas. Além de questões muito concretamente mercadológicas. Mas uma dessas questões fez o alarme soar ainda mais forte.
Depois da revolução da internet, [ ] outra febre que já se espalhou pelo mundo vai chegar ao Brasil: a possibilidade das operadoras de telefonia transmitirem conteúdo: vídeos, jogos de futebol, clipes, textos, games, concorrendo com a televisão e com outros produtores de conteúdo nacionais. A ameaça foi o bastante para detonar uma campanha nacional das empresas de televisão pedindo reserva de mercado para o produtor de conteúdo brasileiro.
Um trecho do documento "Conteúdo Brasil", entregue por atores e cineastas, parceiros da Globo, ao Ministério da Cultura, dá o tom do alarme: "Em 2005, contratos do setor de telecomunicações serão renovados. Agora é a hora de mobilizarmos a nação para que voltemos ao rumo que os constituintes vislumbraram para o país. Podemos deixar claro, dentro dos marcos da lei, que quem controla a infra-estrutura de telefonia está impedido de produzir conteúdo".
O tom impositivo abafa uma série de interesses não simplesmente culturais ou de "soberania" nacional, mas francamente comerciais e mercadológicos. Duas dimensões que sempre andaram juntas, mas que se tornam indiscerníveis e explícitas no momento em que o próprio capitalismo se torna imaterial, comercializando produção simbólica, mais do que bens materiais.
No documento da Globo aponta-se uma necessária separação, um interdito, entre meios de transmissão (base tecnológica e infra-estrutura, redes físicas) e a produção de conteúdo. É um dos muitos pontos importantes do projeto da Ancinav, mas que se tornou ponto de honra nas negociações com as TVs -não vindo a público na cortina de fumaça em torno do suposto dirigismo ou intervencionismo do governo em questões de liberdade de expressão e criação, suspeita que se mostrou infundada. O setor explicitando seu horror a qualquer tipo de controle social.
Mas o ponto de honra das televisões é outro. Como as tecnologias de comunicação não param de mudar (cabo, internet, telefonia celular, TV digital ) e o Brasil não tem como concorrer com as empresas globais, pede-se uma reserva de mercado para a produção de conteúdo brasileiro. Uma reserva de mercado a qualquer custo, mas para quem? Qual a contrapartida?
Riscos e possibilidades Na síntese do economista Luís Nassif, a questão surge de modo cristalino: "A convergência de mídias acabará, finalmente, com a herança getulista da reserva de mercado que caracteriza o atual sistema de concessões para rádio e televisão. Cria o risco real da invasão dos gigantes mundiais, mas abre a oportunidade para o florescimento de uma indústria cultural independente no país. Como nos protegermos dos riscos, sem abrir mão das novas possibilidades?".
Essa precipitação de cenários coloca o Brasil como laboratório experimental do capitalismo imaterial ou capitalismo cognitivo, em que a mercadoria é a informação e o conhecimento, e onde o consumidor é também produtor.
Como falar simplesmente de homogeneização e dominação, diante dos movimentos globais de afirmação da cultura digital, pela democratização da informação, pelo acesso gratuito às redes, pelo software livre, pela inclusão digital? Diante de novas formas de reação e resistência à voracidade do capital nacional ou transnacional?
A questão é que a cultura brasileira sobreviveu e se constituiu, nos últimos 500 anos, a despeito de toda sorte de predação, monopólios, invasão e graças à hibridação e fusão. Porque seríamos dizimados agora pelo processo de globalização eletrônica?
Uma análise em conjunto das campanhas "Identidade Brasil", na TV Globo, do documento "Conteúdo Brasil", coordenado pela Globo junto com a PUC de São Paulo e entregue ao Minc, até as atuais criticas à Ancinav, em editoriais, colunas, telejornalismo, deixa claro que tivemos uma empresa zelosa, que se "antecipou" ao debate público e "propôs" o que poderia estar em sintonia com o ideário do governo e de alguns produtores de audiovisual. Sendo, entretanto, mais realista que o rei, tem-se a impressão de que a Globo encampou uma proposta nacional-popular, já há algum tempo presente ao seu discurso e produtos, que lembra uma reedição deslocada da cultura da broa de milho ou do projeto do Centro Popular de Cultura dos anos 60, mas agora na sua face espetacular e midiática, com difusão em massa e exportação de seu ideário.
Na novela "Celebridade", de Gilberto Braga vê-se uma ode à singela e autêntica vida na zona norte e subúrbios cariocas, com um Andaraí idílico e modelar, pintado com os valores populares mais profundos: samba, pagode, forró, feijoada, de um lado, e, de outro, os novos-ricos da indústria cultural e os novos aliados estratégicos do audiovisual. Uma profusão de cineastas parceiros da Globofilmes foram homenageados ao longo da novela. A primeira que colocou um diretor de cinema fazendo o papel de galã. Um Marcos Palmeira romântico e preocupado com as coisas do Brasil.
Com um arquinho na cabeça e alguns roteiros institucionais sobre as belezas da Amazônia e do Maranhão nas mãos, pela primeira vez a Globo mimava o cinema brasileiro, dando-lhe todas as honras na ficção. Pela primeira vez, o drama da atriz principal, Malu Mader, era um drama empresarial-cultural, de uma trabalhadora da indústria imaterial, uma produtora de bens simbólicos.
Capitalismo flexível Também é interessante analisar as reportagens especiais do Jornal Nacional desde o final de 2003 que elegeram o Brasil profundo e a indústria da cultura como tema: "festa junina, sertão feliz, Brasil bonito", por um lado, e a campanha "Identidade Brasil", série de reportagens sob o mote "é a cultura que faz a cara do Brasil" com os temas: "Brasil com S", "Produção Cultural, Identidade Cultural, Um Grande Negócio", "O Que É Cultura?" e "Cultura na TV".
Temas de fato relevantes e reveladores que poderiam estar em qualquer programa de cultura governamental, não viessem acompanhados de um profundo viés institucional que apresenta uma única empresa de televisão como a repositária e espelho dessa identidade e alma nacional, agente de integração regional e criadora da imagem nacional de exportação. Não está em questão aqui a competência empresarial nem a capacidade de produzir conteúdos e programas de qualidade das Organizações Globo.
O que está em questão aqui é um modelo de produção, ligado ao capitalismo monopolista industrial, que está se esgotando diante do novo modelo do capitalismo rizomático, de fluxos, nômade e flexível, capaz de se reinventar continuamente e se aliar a novos atores, inclusive ao produtor de conteúdo independente.
O aniversário de Ana Maria Braga e de Tony Ramos ou de Regina Duarte e Renato Aragão, sua vida privada, são apresentados como marcos da cultura nacional. E o são, dirá alguém, mesmo se reduzem o "conteúdo brasileiro" e a "identidade nacional" (expressão já por si só problemática, pedindo revisão e plural urgente) a um só agente produtor e a um "star system" global.
Tudo é Brasil! Diríamos, homenageando um criador de conteúdo brasileiro que nunca foi exibido na Globo, o cineasta Rogério Sganzerla. Sim, tudo é Brasil, mas de fato uma única empresa de televisão brasileira tornou-se "a cara" do Brasil, ao realizar uma globalização interna, monocultura, modelo empresarial e estético que triunfou em diferentes mídias: televisão, rádio, disco, vídeo, internet, cinema. Além de exportar "essa cara" como a cara oficial do Brasil no exterior. Mídia-Estado se confundindo de forma problemática.
A explicação para seu domínio do mercado interno, encontramos na fonte, numa das reportagens da série "Identidade Brasil", é no mínimo curiosa: "Mas acontece também uma espécie de exportação interna, dentro do Brasil. Pouca gente pode viajar por todo o Brasil. Então, muitos brasileiros descobrem o Brasil na tela: sotaques, paisagens, festas. A cultura".
Vantagens e perdas A televisão como turismo cultural dos pobres? Sempre desvinculando produção simbólica de mercado econômico e político, esse discurso passa longe de qualquer explicação histórica, mercadológica, ou fazendo referência à trajetória da empresa que durante décadas teve todas as vantagens corporativas, em todos os governos, desde sua implantação como braço ideológico do regime militar e base material para o projeto bem-sucedido de integração nacional via redes nacionais de televisão, até sua entrada polêmica no mercado do cinema nacional, com a Globo Filmes.
Nesse ponto, mais polêmicas, apesar de ter alavancado um "cinema popular brasileiro", o "blockbuster" nacional, capaz de -com sua linguagem decalcada das próprias novelas e séries e capitalizando a popularidade de seus autores- fazer frente à hegemonia do cinema norte-americano, o ganho simbólico vem junto com vantagens não obtidas por praticamente nenhum produtor independente brasileiro. Combinação ainda mais estranha encontramos na estética de de algumas produções da Globo Filmes, como "Olga" ou "Cazuza", fundindo o imaginário rebelde com a estética hollywoodiana da higienização e da glamourização. Como é possível fazer um filme sobre líderes comunistas sem falar a palavra comunismo ou fazer um filme sobre um contestador como Cazuza sem falar a palavra homossexualismo?
Figurante chique É possível uma síntese feliz entre globalização e "globolização"? No final de "Celebridade", Gilberto Gil, negro, tropicalista, odara, defensor do nomadismo digital e do software livre e de todos os hibridismos, no comando do projeto de maior impacto na cultura brasileira desde o Estado Novo (a Ancinav), não se fez de rogado e, convidado, entrou em cena nos capítulos finais da novela. Ministro da Cultura e figurante chique no Sobradinho nacional-popular, celebrando a tal identidade nacional, entre artistas e cineastas (parceiros da Globofilmes) homenageados. O "happy end" da cultura popular midiática celebrada no subúrbio cenográfico, no Andaraí cepecista? Bem, pelo menos a novela da Ancinav ainda não acabou e seu final ainda está em aberto.
O conteúdo brasileiro será nosso? Mas produzido por quem? Vamos receber mais novela, mais compacto de futebol, mas ensaios sensuais de atrizes, ou também net-arte, videoarte brasileira, jogos inteligentes, na tela do celular com conteúdo nacionalizado? E, como contrapartida, vamos ver o cinema brasileiro que desenvolveu realmente uma linguagem própria, singular, não-fossilizada, no horário nobre, na televisão aberta? Se todo brasileiro tem direito de querer ser presidente do Brasil e um brasileiro pobre quis, furou o bloqueio e chegou lá, talvez não seja preciso esperar mais 500 anos para essa outra revolução acontecer. Dá até novela mexicana.
Ivana Bentes é professora e pesquisadora de cinema e audiovisual, coordenadora-adjunta da pós-graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participa das redes de ativismo Universidade Nômade, Universidade Aberta e Revista Global.
Folha de S. Paulo - 19/09/04 - Mais!
Música legal
INTERNET
Sites oferecem downloads gratuitos que vão de canções iraquianas tradicionais a faixas criadas com sons de games
Música legal
JON PARELES
DO "NEW YORK TIMES"
Fazer download de músicas pela internet não é ilegal. Boa parte da música disponível on-line não é apenas gratuita mas também facilmente acessível, legal e, o que é mais importante, vale a pena ser ouvida. A notícia pode surpreender, depois das ações na Justiça, altamente divulgadas, movidas pela associação representativa das maiores gravadoras dos EUA contra fãs que baixam música na internet.
Mas as letras miúdas desses processos deixam claro que os fãs estão sendo processados não por descarregar músicas, mas por fazer distribuição não autorizada: deixar músicas em uma pasta compartilhada para serem pegas por outros usuários.
Na condição de detentores de direitos autorais, os selos possuem o direito legal exclusivo de distribuir a música gravada para eles, mesmo que a tecnologia atual garanta a quase impossibilidade de fazer com que esse direito seja respeitado.
Os tribunais decretaram que os serviços podem continuar a funcionar, porque também são usados para trocar materiais que não infringem direitos autorais.
Enquanto as gravadoras levam a questão à Justiça, inúmeros músicos aproveitam a internet para fazer sua música ser ouvida. Eles apostam que, se entregarem uma ou duas músicas de graça, conseguirão criar um público, promover seus shows ao vivo e vender mais gravações.
O primeiro lugar onde se pode procurar música gratuita são os sites de músicos. Muitos artistas, desde Bob Dylan (www.bobdylan.com) até os Yeah Yeah Yeahs (www.yeahyeahyeahs.com), colocam nos sites músicas difíceis de encontrar.
O próximo lugar para se procurar é nas gravadoras, especialmente em selos independentes de rock e música eletrônica, tipo Matador (www.matadorrecords.com/music/mp3s.html), Vagrant (www.vagrant.com/vagrant/audio/audio.jsp), Barsuk (www.barsuk.com) ou Saddle Creek (www.saddle-creek.com).
Segue uma seleção de sites que oferecem música gratuita on-line. A maioria é mais fácil de acessar quando se tem uma conexão de banda larga ou muita paciência.
Epitonic
O primeiro e melhor lugar para procurar por qualquer banda que tenha feito uma gravação independente é www.epitonic.com, um site organizado que tem praticamente qualquer música escutada em rádios universitárias. Ele inclui também informações biográficas e centenas de links, agrupados por gêneros e subgêneros.
Iuma
O Internet Underground Music Archive (www.iuma.org) foi pioneiro da música gratuita na internet. O site foi fundado em 1993 como um lugar para músicos disponibilizarem suas próprias músicas on-line e continua se expandindo. Infelizmente, para achar uma boa música é preciso ter sorte e o download é um tanto demorado.
Garageband
No www.garageband.com, os músicos são encorajados a avaliar 30 músicas antes de mandar uma de suas próprias (ou então pagar US$ 19,99), e os outros ouvintes também são chamados a atribuir notas a outras canções. As músicas que sobem ao topo podem ser ouvidas na radio Garageband.
BeSonic
Site europeu em que músicos podem disponibilizar suas canções on-line, o www.besonic.com tem uma perspectiva um pouco mais internacional do que outros sites novatos. Os rankings e as recomendações ajudam o visitante a filtrar o material oferecido. É preciso registrar-se.
Música iraquiana
No site www.iraqimusic.com pode-se encontrar tanto as clássicas improvisações iraquianas conhecidas como "maqams" quanto gravações iraquianas mais recentes, baseadas em canções tradicionais (logo, não protegidas por copyrights).
Micromusic
Esse site www.micromusic.net traz música eletrônica criada a partir dos sons dos primeiros e primitivos videogames.
Tradução de Clara Allain
Folha de S. Paulo - 20/09/04 - Folhateen