Thursday, January 20, 2005

A alma ferida de um compositor

BRUNO FILIPPO POLICANI BORSETI

Embalando a figura importada de Papai Noel com suas roupas de veludo em pleno verão tropical, as trilhas sonoras de dezembro são as mesmas no Brasil há décadas, a despeito da avalanche de CDs que as gravadoras despejam no mercado. Onde houver mensagens de Natal difícil é não ouvir ao menos estes trechos, cantados ou em versão instrumental:
Anoiteceu
O sino gemeu
A gente ficou
Feliz a rezar.
Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
Pra você me dar
Chama-se “Boas Festas”. O autor da música que acalenta os sonhos, as tristezas e as ostentações do Natal só conseguiu morrer na quarta tentativa de suicídio, ao ingerir formicida com guaraná num banco da Praia do Russell, na Glória, em 10 de março de 58. Tinha aproximadamente 46 anos. (Não há certeza sobre sua data de nascimento.) Já tentara jogar-se do Corcovado, sendo resgatado pelos bombeiros preso aos galhos das árvores, atirar-se pela janela e cortar os pulsos com lâmina de barbear.
O mulato Assis Valente nasceu na Bahia e, em 1927, veio para o Rio, quando, incentivado pelo compositor e pintor Heitor dos Prazeres, começou a compor sambas que fizeram muito sucesso sobretudo na voz de Carmem Miranda, sua principal intérprete. Pertenceu à geração de compositores urbanos que num país culturalmente múltiplo associou o samba à brasilidade malandra, boêmia e moleque, processo que interessava à máquina de propaganda varguista.
A obra de Assis Valente soma 150 composições. Há clássicos como Camisa listrada (“Vesti minha camisa listrada e saí por aí...”). Ou Brasil pandeiro:
Brasil,
Esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
E outras como “Alegria”, “E o mundo não se acabou”, “Fez bobagem”, “Minha embaixada chegou”... Cantada em festas juninas, uma é tão conhecida quanto “Boas Festas”:
Cai, cai, balão
Cai, cai, balão
Aqui na minha mão....
Sua geração é a mesma que, a partir do surgimento da bossa-nova — coincidentemente no mesmo ano da morte de Assis — foi chamada de cafona e atrasada, para contrastar com a estética minimalista formatada nos apartamentos e bares enfumaçados da Zona Sul. Foi apenas para eles, filhos da burguesia praiana de fins dos anos 50 e adeptos do american way of life , que existiram os tais anos dourados.
No início dos anos 70 os Novos Baianos, cuja importância ainda está a merecer o devido reconhecimento, fez uma leitura neotropicalista da obra de Assis Valente, aliando comportamento contracultural à tradição (esquecida) da música brasileira.
O que parecia ser a recompensa pela infância e adolescência trágicas na verdade camuflava um homem amargurado. Aos seis anos foi arrancado dos pais e da pobreza. Foi entregue a outra família que, ao se mudar para o Rio, abandonou-o na Bahia.
Passou a viver num hospital como lavador de frascos de farmácia. As necessidades da vida fizeram-no múltiplo. Trabalhou num circo como orador e comediante.
Em Salvador conseguiu estudar desenho no Liceu de Artes e Ofícios e formar-se protético, profissão que continuou a exercer paralelamente ao ofício de compositor.
Muitas foram as tentativas de explicar sua personalidade suicida. Ingratidões e incertezas do ofício de compositor, problemas financeiros e até homossexualismo reprimido. Um dia em sua vida talvez seja mais revelador.
O Natal de 1932 Assis Valente passou sozinho e triste em Niterói. Em seu quarto havia a gravura de uma menina de pé, entristecida, os sapatinhos sobre a cama, esperando o presente. Inspirou-se nela para compor “Boas Festas”. A segunda parte merece leitura atenta:
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem!
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem!
Cobertos pela melodia alegre e ingênua das velhas marchinhas de carnaval, os versos, fortes, escondem que nem todo mundo é filho de Papai Noel. Todo mundo pode ser filho de Cristo, a verdadeira razão do Natal, mas o que interessa é o Papai Noel e seu saco de presentes. Quem não pode recebê-lo, e no Brasil são muitos, aprende muito cedo que o Bom Velhinho só o é para alguns, pouco importam os sapatinhos na cama ou na janela e o desejo incontido de criança.
Mas a crítica ao consumismo do Natal é o aspecto mais fácil de perceber. O Papai Noel de “Boas Festas” representa a felicidade que não vem. É a felicidade dos presentes, mas pode-se ver na última estrofe, nas duas referências a essa palavra, a alma ferida de Assis, sem felicidade — o presente, que ele não tem nem nunca teve, pedido em vão a Papai Noel.
“Boas Festas” transformou os tormentos de Assis Valente numa celebração. Entre desejos de feliz Natal e fartas ceias, poucos prestam a atenção à mensagem da música. Numa biografia em que o sucesso realça as tragédias, talvez seja esta a maior.

BRUNO FILIPPO POLICANI BORSETI é jornalista e sociólogo.

Jornal do Brasil - 04/01/04

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