Friday, October 01, 2004

Umberto Eco teme o colapso da comunicação

Berlim, 1 de Outubro de 2004 - O escritor e semiólogo italiano Umberto Eco considera que a internet pode gerar uma falta de comunicação em nível global, já que cada um pode construir sua própria enciclopédia do saber, impossibilitando as referências culturais comuns. "Hoje existe o perigo de que 6 bilhões de pessoas tenham 6 bilhões de enciclopédias diferentes e que já não consigam se entender entre elas", diz Eco em uma entrevista que está sendo publicada hoje no diário alemão "Die Welt".
Eco considera, inclusive, que essa proliferação de culturas individuais pode ser, a longo prazo, um perigo maior do que o confronto verificado hoje entre o Islã e o Ocidente. Eco parece acreditar na possibilidade de radicalização das individualidades e na total relativização dos valores culturais.
"Nada de Islã contra Ocidente, e sim de você contra mim, este é um dos grandes perigos do futuro", afirma Eco. Seria uma espécie de colapso cultural causado pelo conflito entre indivíduos.
Antes da internet, segundo o intelectual italiano, a cultura tinha uma função de filtro, que determinava, por exemplo, que "saber quando Júlio César morreu é importante, enquanto a data da morte de sua mulher, não", afirma. "Com a internet essa valoração se anula", explica Eco. A hierarquização do conhecimento passa a seguir critérios puramente individuais e não mais é orientada por valores culturais definidos consensualmente.
Oráculos contemporâneos
Por outra parte, Eco se manifesta contra a tendência de alguns intelectuais de assumir um papel de "oráculo" para dar resposta a todos os problemas locais e globais.
Essa tendência, que é verificada em todo o mundo e leva, por exemplo, cientistas políticos a falarem de questões de estratégia militar e sociólogos a tratarem com desenvoltura de política internacional em meios de comunicação de massa, tem a ver, segundo Eco, com a decadência das ideologias e dos partidos, e leva muitos intelectuais a aparecer na televisão para falar de múltiplos temas.
"Mas, como não sabem de tudo, dizem besteiras que acabam tendo influência", diz Eco. O escritor afirmou que, como intelectual, é preciso se defender e dizer que não há respostas (ou que não se conhece a resposta) quando este for o caso, apesar de alguns jornalistas se decepcionarem.
(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 15)(EFE)
(01/10/04)

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